top of page

Nearshoring e descaminhos diplomáticos

Aproximação Brasil-China favorece base industrial do México

Em seu livro “Undaunted Courage”, Stephen E. Ambrose - mais conhecido pelo clássico “Band of Brothers” que inspirou a série homônima - narra a jornada dos exploradores Meriwether Lewis e William Clark para desbravar e atravessar todo o território recém anexado aos Estados Unidos nos primeiros anos do século XIX. Sem dúvida, um feito de bravura enorme destes dois militares que rumaram em direção ao desconhecido para a consolidação de seu recém-formado país.

Entretanto, Lewis e Clark jamais existiriam sem o imperativo categórico de Thomas Jefferson de que os Estados Unidos devesse ser um país continental. Jefferson, um homem das letras, possuía a maior biblioteca do mundo quando se tratava de livros e mapas do continente norte-americano. Foi durante sua presidência que Jefferson, após comprar a Louisiana dos franceses, preparou e financiou Lewis não apenas para demarcar as terras à oeste, mas para reportar suas descobertas com rigor científico. Sob a benção de Jefferson, Lewis foi treinado pelas Sociedades Americanas de Ciência, de Botânica e de Astronomia e apresenta, em seu diário, uma descrição detalhada da geografia, da fauna e da flora dos lugares pelos quais passou.

O legado da expedição de Lewis e Clark é uma lembrança permanente do efeito que líderes têm sobre o futuro de suas nações, principalmente em momentos decisivos. O mundo passa, mais uma vez, por um destes momentos. A pandemia do Covid-19 ilustrou o risco das cadeias de suprimento super-otimizadas, como no caso das indústrias de semicondutores, e dividiu governos entre aqueles que prezam pela liberdade e bem-estar dos cidadãos e aqueles que as suprimem em nome de um suposto bem-comum.

Há uma rápida movimentação das empresas em reação a esse novo paradigma. O “just in time”, modelo de produção que nasceu da eficiência japonesa nos anos 1980 e foca em carregar o mínimo de estoque possível, foi substituído pelo “just in case”, no qual empresas operam com um nível maior de estoque com medo de, assim como ocorreu logo após as rodadas de estímulos fiscal e monetário, não serem capazes de atender um aumento na demanda.

As sanções aplicadas à Rússia após a eclosão do conflito na Ucrânia, mostrou a investidores e empresários que um país pode ter seu acesso ao mundo globalizado simplesmente cortado do dia para a noite. Nesse novo mundo onde sanções comerciais se sobrepõem a ações militares, investidores ficam cada vez mais cautelosos com a China e suas ambições de hegemonia mundial.

Além disso, com os recentes esforços dos governos ocidentais para repatriar parte da produção industrial através de incentivos, indústrias inteiras estão deixando a China e repensando planos de expansão no movimento conhecido como “nearshoring” ou “friendlyshoring” - instalar sua produção próxima ou em países de menor risco.

Em nosso continente, um dos maiores beneficiados deste processo é o México. Por sua proximidade com os Estados Unidos e pela sua mão de obra barata, o país tem recebido um grande aporte de investimento, mesmo enquanto o atual presidente, López Obrador, duela com a Suprema Corte para corroer as estruturas democráticas do país. Há diversas anedotas que corroboram tal fato. Elon Musk, por exemplo, recentemente anunciou que Tesla abrirá uma fábrica em Monterrey, cerca de três horas de carro do Texas.

Não obstante, em seu relatório trimestral de inflação, o Banco Central do México afirma que o investimento segue forte no país. A construção não-residencial e o investimento em maquinário importado estão, respectivamente, cerca de oito e seis por cento acima do nível pré-pandemia. O dinamismo do investimento industrial é surpreendente quando comparado à fraqueza da construção civil.

O Brasil, novamente, deve ficar de fora deste movimento, apesar da sua relevância na América Latina. O atual presidente, através de sua guinada diplomática, optou por estreitar laços com a China, contrariando os países de maior expressão no Ocidente.


Lula é afeito aos grandes gestos, como quando tentou negociar um acordo entre Estados Unidos e Irã durante o governo Ahmadinejad e ensaiou novamente o mesmo passo em relação à Ucrânia e à Rússia. Sem deixar claro se a Ucrânia deveria abrir mão de parte de seu território ou se a Rússia deveria devolver territórios conquistados, esbarrou na proposta da diplomacia chinesa, que jogou o brasileiro para escanteio. A posição de Lula só encontra respaldo em um terceiro mundismo patológico. Ao buscar um protagonismo que o Brasil não conquistou, de fato, no cenário internacional, Lula condena o país não apenas à coadjuvância diplomática, mas a uma relação de fragilidade em relação a potências cujos valores, tanto culturais quanto democráticos, não se alinham com o país que ora governa.


CRÉDITOS (Foto): Alfonso21, CC BY-SA 3.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0>, via Wikimedia Commons



 
 
 

Comentários


SIA Quadra 5-C, Lote 17/18 Sala 211

​Brasília - DF

Copyright © 2025 - Instituto Democracia e Liberdade  -  CNPJ: 46.965.921/0001-90 - Confira os Termos de Uso e Condições

Vendas sujeitas à análise e confirmação de dados pela empresa.

Política de Entrega: Os produtos digitais são entregues eletronicamente e o acesso é liberado imediatamente após a confirmação do pagamento.
 

Política de Troca e Devolução: Devido à natureza dos produtos digitais, não aceitamos trocas ou devoluções, exceto em casos de falhas técnicas comprovadas.
 

Política de Reembolso: Reembolsos serão processados apenas em casos de duplicação de pagamento ou problemas técnicos que impeçam o acesso ao produto. O reembolso será creditado na mesma forma de pagamento utilizada.

bottom of page