Silicon Valley Bank: a felicidade não se compra
- Núcleo de Notícias

- 23 de mar. de 2023
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A quebra de bancos não é um filme novo. Apenas os espectadores parecem se surpreender com o roteiro que supunham original

No clássico de Frank Capra, “Felicidade Não se Compra”, o protagonista, George Bailey, é um jovem com espírito aventureiro com o sonho de viajar o mundo. Pelos caminhos do destino e por seus valores tradicionais, Bailey se vê obrigado a abandonar seu sonho para cuidar do negócio da família: um pequeno banco no interior dos Estados Unidos focado em empréstimos de hipoteca.
Tal cenário nos parece curioso. Ao contrário do Brasil, onde o sistema bancário é dominado por um punhado de grandes bancos, os reguladores americanos estimulam que pequenos e médios bancos atuem em regiões e segmentos especializados. Dessa forma, pequenos e médios bancos representam cerca de 50% do mercado americano atualmente.
Apesar de se passar na década de 30, os princípios que permitiram a Bailey e sua família prosperarem em seu pequeno empreendimento foram os mesmo que possibilitaram a ascensão do Silicon Valley Bank (SVB). O SVB cresceu atuando em um segmento bastante específico, o de startups e empresas investidas de fundos Venture Capital. Ao longo da pandemia, recebeu altos montantes de dinheiro resultado da exuberância do mercado de capitais e da busca por retornos que se seguiu ao primeiro choque pandêmico.
Com tanto caixa, o banco optou por tomar uma decisão que a princípio parecia segura: investir o dinheiro em títulos do governo americano de longo-prazo. Porém, o que veio a seguir foi o maior aperto monetário dos últimos 40 anos, com a taxa de juros básica americana, o Fed Funds, saindo de próximo de zero para 4.5% no final de 2022. O SVB, com seus papéis com taxas médias de 1.7%, sabia que teria prejuízos bilionários.
Entretanto, bancos funcionam por regras diferentes. O SVB optou por declarar que carregaria os títulos, de 10 e 30 anos, até o vencimento, quando receberia o principal e, de fato, nenhum prejuízo seria realizado. Visando estimular a competição bancária, os reguladores não obrigam pequenos e médios bancos a reportarem as possíveis perdas com estes ativos que serão carregados até o vencimento.
O prejuízo, portanto, era possível, mas improvável. Exceto se, como nosso herói Bailey descobriu, haja uma corrida bancária. Quando o SVB anunciou que faria um aumento de capital para cobrir prejuízos no seu portfólio de investimentos, os Venture Capitalists avisaram às suas empresas investidas que era mais seguro retirar o dinheiro do banco.
Uma das cenas mais dramáticas do filme mostra Bailey lutando para manter seu banco aberto e conter o pânico. Em seu discurso, Bailey mostra o funcionamento de um banco. O dinheiro depositado não está no cofre, o seu dinheiro foi usado para construir a casa do seu vizinho e, se você confia que seu vizinho vai honrar suas dívidas, deveria confiar também no banco. Bailey consegue convencer todos a sacarem apenas uma quantia para passar a semana, ao invés de todo o seu dinheiro, e assim seu pequeno banco sobrevive.
As startups não tiveram a mesma confiança. Sabendo que a maior parte dos depósitos, que as empresas usam para pagar funcionários e custos fixos, estariam acima do limite de US$ 250 mil segurados pelo Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC), iniciou-se uma corrida bancária que forçou o SVB a vender os títulos que esperava conseguir carregar até o vencimento, realizando, assim, aqueles prejuízos bilionários que pretendia evitar.
Corridas bancárias são a maior ameaça ao sistema financeiro atual. Dessa forma, as autoridades da Califórnia rapidamente fecharam o banco na sexta-feira, dia 10 de março. Durante todo o final de semana, autoridades do Tesouro americano, do Fed e do FDIC trabalharam para encontrar uma solução enquanto monitoravam cerca de outros 20 bancos que foram contaminados pelo pânico.
Havia pouco tempo para organizar o balanço do banco e prepará-lo para uma venda. Temendo um contágio ainda maior quando os mercados reabrissem na segunda-feira, as autoridades, na noite de domingo, optaram por garantir todos os depósitos do SVB, mesmo aqueles acima do teto do FDIC. Isso serviu para acalmar os mercados e conter a crise.
Os dados semanais do Fed divulgados na última quinta-feira, dia 16, começaram a ilustrar a magnitude do problema. Na janela de redesconto, meio tradicional dos bancos conseguirem liquidez através de empréstimos com o banco central, a demanda foi de US$ 165 bilhões, ultrapassando o pico da crise de 2008.
Além disso, o Fed disponibilizou um novo mecanismo de socorro em que ele se dispõe a comprar esses ativos que o banco optou por carregar ao vencimento a valor de face, evitando, assim, os prejuízos bilionários como no caso do SVB. Este mecanismo injetou mais US$ 25 bilhões no sistema que, aliado ao redesconto e aos US$ 120 bilhões do resgate ao SVB, totalizaram cerca de US$ 300 bilhões no balanço do Fed.
Esse parece ter sido o custo para estancar o pânico nos mercados em um primeiro momento. Entretanto, as repercussões ainda estão acontecendo. Na última sexta-feira, dia 17 de março, um conjunto de grandes bancos, dentre eles JP Morgan e Morgan Stanley, depositaram cerca de 30 bilhões de dólares no First Republic, um banco médio que segue sofrendo resgates desde o começo da crise. Na Europa, os reguladores suíços tentam manter a estabilidade financeira no país, e no mundo, organizando a do Credit Suisse, o segundo maior banco suíço, para o UBS, o maior banco do país. Mas, por ora, nenhum acordo foi alcançado.
Após o maior aperto monetário visto em décadas, os bancos centrais parecem determinados a comprar a estabilidade financeira, gastando qualquer montante necessário e, possivelmente, desfazendo parte do aperto nas condições financeiras necessárias para controlar a inflação.
CRÉDITOS (Imagem): NIKOLAS KOKOVLIS/NURPHOTO/GETTY IMAGES
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